Thursday, January 11, 2018

Trilha sonora italiana - Ivano Fossati



Ivano Fossati é um músico completo. Instrumentista poliédrico, cantor e compositor, nasceu em Gênova, em 1951 e passeou por diversos ritmos musicais. Sua última fase foi introspectiva, com letras elaboradas. Sim, “foi”. Retirou-se do cenário musical em 2012, publicou um romance em 2014.

Foi num talk show em 2011, durante a entrevista para para a apresentação do disco mais recente – e que seria o último – que Fossati anunciou, para surpresa do apresentador Fabio Fazio e do público presente, que não mais produzir outros discos nem apresentar-se em público.

Fossati - «Pensei, não nestes últimos dois dias, mas em dois ou três anos, que não farei mais outros discos, shows.»
Fazio - «Fim da carreira?»
Fossati - «Sim. Trata-se de uma decisão serena, tomada num período longo. Eu sempre achei que, na minha idade, gostaria de mudar. Sempre me questionei se no disco seguinte poderia garantir a mesma paixão que me trouxe até aqui. Não acredito que poderia fazer algo que possa somar qualque coisa ao que fiz até agora. O próximo tour será o último.»

E assim a Itália musical perdeu um dos compositores mais respeitados, com apenas 61 anos.

Vez ou outra, compõe para algum intérprete, faz um solo de guitarra ou violão para o disco de algum amigo. Palco, nunca mais.

Conheça e consuma a obra registrada em discos, cds e Internet. Boa audição!






Site oficial: www.ivanofossati.it 



La mia banda suona il rock

La musica che gira intorno

L’amore fa

Carte da decifrare

Settembre

C’è Tempo

Saturday, December 23, 2017

Almoço de Natal na Itália

O almoço do dia 25 de dezembro é o momento mais esperado nesse período de festas. Cada região italiana, cada cidade, cada família, cultiva as próprias tradições. O importante é estar à mesa no dia de Natal na companhia de parentes e amigos. E se entupir de comida e vinho.

Se a ceia da véspera deve ser espartana e contida, o almoço do dia seguinte compensa todo o recolhimento do mistério e da espera do porvir. Na ceia do dia 24 não entra carne, mas uma massa recheada com leveza e parcimônia, muitas vezes com ricota e espinafre. Pouca, em respeito à miséria da manjedoura.

O almoço de Natal, ao contrário, deve ser abundante e longo. Canapés diversos como antipastos, onde o de camarão com gelatina vai estar sempre presente, panettone gastronomico (um panetone sem frutas cristalizadas fatiado em camadas e recheado com maionese e muita imaginação – do qual sempre mantive distância), torradinhas, embutidos e “mostarda” (frutas cristalizadas em xarope doce com um pouco de mostarda em pó). Passada a primeira hora, hora e meia, serve-se um prato de massa recheada. Em Piacenza a tradição pede um caldeirão de anolini in brodo. Anolini é similar ao cappelletti ou ao ravioli, dependendo da massaia (a que faz a massa), só que se chama anolini. Deve ser recheado com carne cozida (stracotto) na panela, pão e queijo grana. À parte, prepara-se o brodo de carne, com carne de vaca, galo capão, cenoura, salsão, cebola e tempêros. Serve-se a massa num prato fundo, boiando em meio a muito brodo. Prepare-se, pois a carne cozida para o brodo vai se apresentar como segundo prato, provavelmente acompanhado de uma carne assada e depois da lasanha. Vinho, muito vinho. Tiramisù, tartufo e algum pudim irão anteceder o panetone e o pandoro, talvez com um pouco de sorvete.

As horas passam, o almoço está em processo digestivo, o vinho subiu um pouco e as frutas secas são servidas. Limoncino, licores vários, grappa, café e uma vontade louca de deitar no sofá impedem uma completa compreensão do argumento tratado entre sorrisos, do mundo, da vida. Ninguém lembra mais o motivo da festa, o que importa é estar em companhia, se embriagar junto.

Lá pelo início da noite, uma torta aparece sobre a mesa. Por aqui será uma sbrisolona, uma torta simples com amêndoas, boa para testar próteses dentárias. Claro que deve ser acompanhada de um vinho doce ou um Malvasia. Um espumante também é aceito. O medo de que tudo esteja para recomeçar faz com que as pessoas comecem a levantar da mesa e se despedir. Afinal, todos precisamos passar na casa de alguém, esperando que tenham acabado de comer por lá, também.

Feliz Natal!

Friday, October 27, 2017

Pintassilgo moderno



Macarrão, carramão, racamão, camarão, marracão. Eu ia adiante por esse caminho até conseguir não lembrar como era o certo. Me desesperava ao tentar dizer macarrão e sair outra coisa. Me desesperava e mudava de brincadeira. Brincava muito sozinho, apesar de ter três irmãos e um mundo de amigos. “Ele vive no mundo da Lua”, dizia minha mãe. Vez ou outra, ainda diz.

A verdade é que sempre gostei de brincar com as palavras. Era bom em português, mas já esqueci muita gramática, que gramática é regra e sempre fui meio rebelde. Um rebelde tímido, silêncioso, que é pra não chamar a atenção. O anjinho encapetado. Não dissimulado, sonso. Não, isso não. Apenas um com cara de querubim, imaginação de sobra e espírito de porco.

Asno gorante, invés de ignorante; burro de estrofe, quando a ignorância faz alguém empacar; muitilhão, tantilhão, coisilhão e porrilhão. Nessa ordem de grandeza; diarreia intelectual, quando alguém tenta me convencer com argumentos apoiados em tratados, resultados científicos ou baboseiras alheias. Mas tem mais. Muito mais.

Quem tem dois ou mais filhos não se assusta quando outros pais trocam o nome dos próprios filhos [é verdade, meus pais me chamavam de Bruce durante um período por incerteza mesmo, mas naquela época eu e meu irmão caçula éramos realmente idênticos. Até eu me confundia]. No caso das minhas filhas, Bianca e Luiza, acontecia por dois motivos: primeiro, a síndrome a que me referi acima; depois, porque sim. Marinalva e Bertolândia, Arirí e Arará, Pupunha e Janaíra ou qualquer coisa que me viesse na hora. “Papi, quem é a Chumbrega e quem é a Fufinha?” “A Fufinha sou eu, você é a Chumbrega.” “Não, eu não quero ser a Chumbrega…” E a coisa rolava.

É mais fácil lembrar de alguém que se chama Petronilha ou Marinalva que da Maria ou da Regina. Sim, teve uma Petronilha na minha infância e uma Marinalva na minha adolescência, lembro delas até hoje. Quantas marias e reginas passaram? Quem sabe? Eu, não.

Conversava com um querido amigo – que já se foi – numa língua que não existia. Cada dia um era o tradutor, num chopinho descontraído em algum boteco do Leblon ou da Tijuca. “Vat minih havá” (vai tomar no c…) “Vate vut!” (vai você!) “Ah damalah n’go” (bora tomar outra). E as pessoas olhavam com curiosidade, e os garçons se dirigiam àquele que falava em português, e nós ríamos às pamparras.

Pintassilgo moderno é algo realmente bonito. Não, o superlativo de bonito é lindo. Então, pintassilgo moderno (às vezes sai “muderno”, que é mais bonito) é algo lindíssimo. Vocês já viram um pintassilgo, as variações de cores e a vivacidade delas? Um pintassilgo moderno seria a tentativa de melhorar o que já é melhor, uma ode à beleza, o Sol visto de cima da neblina, o vôo do pássaro solitário, um abraço na rua. Pintassilgo moderno é o orvalho no cabelo do rapaz esperando a namorada, a horta no fundo do quintal, a flor que desafia a calçada. Pintassilgo moderno são minhas duas filhas, Chumbrega e Fufinha.